27 maio, 2010

Fui missionário no Haiti


por Juliano Moraes
Juliano Moraes é acadêmico do curso de biologia na UFG em Jataí-GO e é missionário da JOCUM, tem 23 anos e mora em Chapadão do Céu – GO.

Fez parte do grupo de missões da JOCUM que trabalhou no Haiti após os terremotos.
Essa entrevista foi cedida ao Reflexão e parceiros para divulgar os trabalhos pós-terremotos no Haiti.


1. Durante quantos dias você ficou na capital do Haiti, Porto Príncipe? Você foi com uma equipe de ajuda humanitária?
Fiquei exatamente 25 dias no Haiti! Na capital deve ter dado uns 20, sim estávamos com uma equipe de JOCUM que trabalha com ajuda humanitária, tinha pessoas da JOCUM lá de vários países, americanos, canadenses, brasileiros, africanos, suíços, etc...

2. O que você viu em Porto Príncipe que é diferente, ou não é mostrado pela imprensa nas notícias, sobre o terremoto das emissoras de TV, sites e jornais etc?
Fiquei um pouco chateado pela imprensa dizer que vários países estavam ajudando nas reconstruções, e distribuindo alimentos, mais o que eu vi foi um monte de caminhões parados e um monte de containers sem ninguém pra trabalhar, muita coisa que poderia ser útil estavam paradas nos pátios da ONU

3. As pessoas que sobreviveram ao terremoto estão vivendo em que condições de saúde, moradia e higiene?
Elas estão vivendo da misericórdia de DEUS! Elas não têm condições nenhuma de saneamento básico, as casas que foram derrubadas estão condenadas, e os haitianos tem medo de voltar pra dentro delas e acontecer outro terremoto, então eles ficam nas ruas, ou fazem barracos de lona ou lençóis nos terrenos baldios que existem em Porto Príncipe. No centro da cidade existem alguns banheiros químicos que a ONU deixou lá. Mas são cerca de 50 banheiros no centro, e no centro tem milhares de pessoas acampadas, não adianta de muita coisa! Eles fazem suas necessidades na rua mesmo, os banhos são tomados nos pequenos córregos que ainda existem na cidade! Antes do terremoto o Haiti já era um caos, eles derrubaram praticamente todas as árvores do país pra fazer carvão, com isso eles detonaram todo um ecossistema, então eles não contam com recursos naturais pra sobreviverem. Como a pobreza é muito grande, o que eles tinham pra sobreviver era a venda de carvão e o resultado disso foi a extinção das espécies endêmicas, os rios secaram e vários outros fatores naturais que agora eles estão sentindo falta.

4. Alguns dias após o terremoto muitos países enviaram ajuda, seja de alimentos, roupas ou remédios. Estas doações foram suficientes? Como elas eram divididas?
As doações estão chegando sempre! Mais eu não entendi muito bem como a ONU está distribuindo isso. Eu ouvi muitos relatos de pessoas passando fome, mas ao mesmo tempo via muitas notícias de doações chegando. Não consegui ver tudo o que estava acontecendo lá. Fomos com a nossa ONG pedir ajuda pra ONU, pedir alimentos pra nos distribuirmos, ou barracas pra nós montarmos para o povo, e deparamo-nos com uma enorme burocracia pra conseguir as coisas junto às nações unidas. Resumindo o povo esta passando fome e sede, mas não sei dizer se é a falta de doações ou a despreocupação em distribuí-las!

5. Quais os tipos de trabalhos e quais as atividades você e as demais pessoas do seu grupo realizavam?
Nós trabalhamos com muitas coisas diferentes, o objetivo central da JOCUM é levar Esperança pras pessoas através da palavra de DEUS, então usávamos nossa ajuda como estratégia para ganhar o direito de ser ouvidos por elas. Nós montamos tendas pras famílias, construímos banheiros, distribuímos água e comida, fizemos trabalho de recreação com as crianças e principalmente atendimento médico de todos os tipos.

6. Uma das missões sua e do Jocum foi levar esperança e a palavra de Deus àquelas pessoas. Como vocês trabalhavam para motivar de alguma forma ou levar esperança às pessoas que passaram por tanto sofrimento e dor?
Os haitianos nos surpreenderam, nós imaginávamos que eles estariam todos tristes e indignados com DEUS pela tragédia, mas a leitura do acontecimento que eles fazem é totalmente diferente do que talvez nós, brasileiros, fizemos. Eles têm a cultura de sempre olhar a parte boa da coisa (risos).
Conversei com algumas crianças que tinham perdido membros do corpo, e mesmo assim elas estavam dançando e sorrindo nos nossos cultos. Daí perguntava a elas, por que vocês estão felizes? Você está (por exemplo) sem uma perna! E elas sempre falavam:
– Eu estou feliz porque eu ainda tenho a outra, tem gente que ficou sem nenhuma.
Ou diziam:
– Eu perdi meu pai, mais eu ainda tenho meu irmão e minha mãe! Já está bom, tem gente que perdeu tudo!
É muito diferente. A esperança já esta no coração deles, então falar de JESUS pra eles foi relativamente fácil, eles estavam muito abertos para o evangelho.
Na verdade eu que aprendi muito com eles nessa parte. (risos)

7. Os noticiários divulgaram que muitas crianças perderam seus pais e órfãos não tinham a quem recorrer. Isso de fato pode ser percebido, como esta sendo tratada esta questão das crianças?
Muitas crianças estão lá rodando pela cidade sem ter ninguém por elas. Elas se viram, literalmente, elas aprenderam onde tem comida sendo distribuída e elas ficam por lá. Alguma outra família acolhe uma ou outra criança, mais isso é fato, muitos pais morreram e muitas crianças estão lá sozinhas, outras foram ficar nos barracos com os tios, ou ex-vizinhos. O pior é que a as ONGs que estão lá não têm muito que fazer por essas crianças na questão da moradia, não existe nada reconstruído ainda, está tudo no chão. O que está sendo feito por elas é dar comida e água, alguma diversão, muito carinho e amor, que foi o que nós da JOCUM fazíamos pelas crianças.

8. Muitas pessoas morreram durante o terremoto e inúmeras ficaram gravemente feridas. Durante o tempo que você permaneceu na capital do Haiti você teve notícias sobre mais mortes em decorrência dos ferimentos sofridos?
Sim, muitas pessoas morriam de fome ou de doenças. Pessoas pelas quais não tinha o que ser feito, pessoas que se machucaram muito no terremoto, ou até pessoas que não receberam atendimentos. Houve outros tremores secundários no Haiti, que prejudicaram muita gente, a sede também foi um grande mal para as pessoas pós-terremoto. Muita gente morreu depois do terremoto, isso é fato.

9. Você sentiu medo em Porto Príncipe? Do que?
Sim. Não existe energia elétrica a não ser dos geradores que estão lá, a rede publica de eletricidade está toda no chão, então as noites eram muito escuras e como muita gente não tem pra onde ir, elas ficam nas ruas andando pra lá e pra cá. Isso nos traz muita insegurança. Também passei um dia por dentro de um tiroteio entre o exército e alguns integrantes de facções que tentam tomar o governo do Haiti ha muito tempo. Não foi muito legal, achei que nós não íamos passar daquela!

10. Mudou alguma coisa na sua vida esta experiência?
E como. Eu aprendi a dar mais valor no Brasil, na vida e em DEUS principalmente, aprendi que realmente em tudo DEUS tem propósito, mesmo em uma coisa tão catastrófica o Senhor sempre tem algo a dizer pra nós! E o melhor de tudo é que os haitianos entendem isso.

11. Qual o melhor e o pior momento desta experiência?
Foi em alguns momentos em que eu estava com muita fome e não tinha o que comer, ou muitas vezes até tinha na mochila, mas como eu iria comer sendo que eu estava rodeado de crianças do meu lado que faziam 3 ou 4 dias que não comiam nada? E eu reclamando de não poder comer, elas rindo e pulando e me abraçando, sem reclamar de nada! (isso marcou muito a minha vida!)
Como nós relativamente sempre temos as coisas, quando falta um pouquinho já reclamamos, mas nunca lembramos que existem pessoas ao redor do mundo que não tem nem 1% do que nós temos acesso, somos egoístas e egocêntricos. Por coisas de nada já reclamamos e colocamos culpa em DEUS e também usamos coisas desleais pra conseguir o que queremos, no Haiti vi tudo ao contrário, um ambiente hostil, todo propício a gerar violência, mais na verdade o que gerou foi cumplicidade e união.
O Mundo deveria dar comida pro Haiti em troca de aulas de como se vive em comunidade e em companheirismo.

6 comentários:

DIZZIO disse...

E nós reclamamos diariamente dos pequenos infortúnios do nosso dia a dia.
Me faz lembrar de cada vez mais agraceder a Deus pelo que temos, ao invés de pedir.

juliano disse...

DIZZIO foi o q DEUS mais falou comigo la! sobre a nossa ingratidão diante de todas as bençãos q ele nos da, o stilo Haiti de ver a vida trasformou minhas atitudes no dia a dia! =)

KeLy disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
KeLy disse...

Cada vez que lembro dessa tragédia no Haiti, penso do quanto Deus tem me abençoado, e quantas foram as vezes que ao invés de dizer
"Senhor MUITO OBRIGADO" digo: "Senhor PRECISO MAIS!!". De fato somos egocêntricos, e aprender com pessoas que passaram por tudo isso, é uma boa maneira de ser grato! Ju, vc é um canal de benção cmo sempre falo... e Deus reconhece o trabalho daquele q se dedica a obra! Parabens, sua força de vontade é comovedora e um exemplo pra mim! =)

Wendy disse...

Realmente aprendemos lições significantes com quem nunca poderíamos imaginar que teria algo a ensinar. Somos imperfeitos e pecadores, mas o Senhor nos ama independente da forma como agimos. Como é bom estar no centro da vontade de Deus e isso nos faz crescer! Ele te capacitou Juliano para ensinar e aprender mais Dele. Que a Luz do Senhor resplandeça sobre ti. Ótimo trabalho! Abraçoo.

rafaella disse...

Devemos agradecer a Deus pela agua quentinha, pela comida, por TUDO até pelas coisas mais bobas. E antes mesmo de reclamar devemos lembrar que muitos não tem nada e não reclamam! Que Deus continue abençoando a sua vida Juliano. Beijo :*