26 fevereiro, 2010

O Buraco na Lata

por Luciano Gazola
Como quase todos os que mesmo sendo brasileiros carregam no sobrenome um som italiano, posso afirmar que alguns dos melhores momentos de minha vida deram-se em volta de uma mesa farta. Farta de conversa. Farta de emoções. Farta de comida, farta mesmo, não “fartando” tudo como algumas mesas de muitos amigos que hoje tenho. Certamente que não foi de minha mãe que herdei o gosto por cozinhar, ela odeia cozinhar e o mais irritante nisso é que ela cozinha bem!

Com meu pai aprendi quase tudo que sei hoje, e muito disso aprendi na cozinha. Aprendi a sonhar sempre mesmo sobre a desconfiança de todos, aprendi a gritar quando doe, a agradecer sempre e até a explodir se preciso for. Também foi com ele que aprendi o sabor do alho, da cebola, do orégano do sal grosso encima da costela e o melhor tempero de todos; “O Tempo”. Meu pai sempre matava agente de fome antes de colocar a obra prima à mesa.

Certamente que não foi com ele que aprendi o auto-elogio “ o não sei quem fui que fez mas ta muito bom”, meu pai jamais elogia sua própria comida, é um reclamão nato. Hoje estava me lembrando do buraco na lata. Para quem não sabe, poucos anos atrás o Óleo de Soja vinha em uma lata que depois de reciclada virava forma de pão, remendo de telhado e outras coisas mais. Na lata se fazia um buraco e por ali o óleo despejava. La em casa muitas vezes se discutia o tamanho do buraco na lata. Minha mãe ou alguma funcionária faziam um rombo, o que deixava o seu Gazola indignado, esbravejante. Ouvi muitas vezes aos gritos ele dizendo que até uma barata poderia passar por aquele buraco. O buraco que meu pai fazia era tão pequeno que mal saia o óleo. Eu suspeito que era por economia, mais vai saber...

Há uns anos, ainda em tempo de faculdade, eu trabalhava em uma empresa que armazenava soja e milho. Numa manhã de entre safra fui convidado para preparar 4 pacus assados no refeitório. Eu trabalhava na expedição, mas alguém disse que eu sabia assar peixes (provavelmente eu mesmo disse). A Fátima, cozinheira da empresa, veio com a lata de óleo de soja e foi impossível não lembrar meu pai. Não era um buraco era um rombo, literalmente um rombo, se na lata de minha mãe passava uma barata naquela passaria um camundongo tranquilamente. Ao ver a Fátima derramando o óleo na enorme panela de arroz entendi o porquê do buracão! Meu pai ficaria meia hora despejando, mas duvido que aumentaria o buraco.

O buraco que para mim parece grande pode ser pequeno para você e se não somos capazes de entender essas diferenças viveremos “emburacados”. Os óculos que usamos podem nos deixar míopes e nos impedir de ver e perceber as realidades em nossa volta. A arte dos relacionamentos se deve boa parte em saber observar o tamanho do buraco e a utilidade dele. Tem muita gente com buraco pequeno onde devia ser grande e com buraco grande onde devia ser pequeno. Ainda bem que não se usam mais latas para o óleo de soja, mas ainda se usam latas para os conceitos e buracos pequenos para esvaziá-los. O Pacu ficou muito bom, o melhor que eles já comeram, mas também não sei quem fui que fiz!

Com amor e reflexão Luciano Gazola.

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