20 novembro, 2010

Minha Vocação

Aparentemente um domingo normal aquele de abril de 1998. Hoje eu sei que a minha vida nunca mais foi a mesma... O Templo era bonito, geométrico, emadeirado, cheiroso, confortável ao mesmo tempo simples e singular. As pessoas eram brancas a primeira vista, pareciam todos gaúchos como eu, amáveis, carinhosas, prestativas e verdadeiramente demonstravam felicidade por mim e por outros visitantes que ali estavam. Lembro-me das  músicas, do banco em que sentei e das samambaias que enfeitavam as paredes. O pregador era “pequeno” mas dono de uma voz poderosa e de palavras cotidianas que alfinetavam a minha alma, ele era de fora de longe, ele era gaúcho como eu, Mário Silveira.
Foi da boca dele que saiu o apelo que me arrebatou a frente do templo e daí em diante de poucas coisas consigo lembrar ou melhor poucas daquelas coisas que senti na alma as palavras podem descrever. Quem me abraçou também não era muito grande, era branco, gordinho, careca, gaúcho, gremista e  capaz de amar com um abraço. Valdemar meu pastor, amigo, espelho e impulso a um chamado! ( por que faço questão de citar que eram brancos e gaúchos ?  Por que do mundo dos brancos e dos gaúchos eu não esperava mais nada, fugi de lá em busca de algo que não encontraria na geografia imensa do Brasil, porém para mim de lá é que não viria a paz que eu procurava)
Sim aquele domingo não era normal, nunca foi normal pra mim. Surgia dentro de mim uma chama que não podia ser explicada e que não veio nem do Mario nem do Valdemar. Não era a igreja que estava mudando minha vida, não era o cheiro do templo nem a doçura do louvor, não eram os abraços das pessoas ou os sorrisos nada disso. Tudo isso era bom. Mas dentro de mim nascia algo maior, eterno, transformador, desafiador. Eu não sabia mas sentia que da Izzat Bussuan até a rua Mato Grosso em  minha existência  alguma coisa mudava pra sempre, e mudou!
Esse chamado arrebatou a minha vida. Me arrancou da Universsidade Federal, me lançou em um Seminário com rampas grandes... Me apaixonei por Jesus, amei e mergulhei na Graça Dele, não como os apaixonados de uma noite de um culto de uma musica, apaixonado pra sempre, amei Jesus de todo meu coração, abri mão da minha razão, mergulhei em um caminho de fé irreversível, senti um amor sobrenatural capaz de satisfazer toda minha sede pra sempre.
Na euforia de minha juventude espiritual deixei de viver pra mim mesmo. Meu olhos brilhavam ao ver o meu pastor Valdemar servindo ao meu Deus Jesus Cristo. Desejei ser como ele. Vi  e ouvi dele as lutas que tinha, mas mesmo assim nada me tiraria da vocação do amor.
Deus me fez pastor.
Vieram minhas próprias lutas e algumas delas só eu e Deus, na verdade “eu e Deus só” não, nunca suportei a solidão, sempre tive amigos ou pelo menos amigo. Quantas vezes chorei ao lado do bom amigo Wagner e desejei largar a vocação. Dizia que jamais abandonaria o Evangelho porém as ulceras do ministério tinham ficado insuportáveis  e agora chega. Mas não conseguia! Tentei, criei planos mirabolantes para sair fora mas não dava e não era Jesus que não deixava Ele até entrava junto comigo nos meus  labirintos vocacionais. Desisti. Desisti das coisas de menino. Percebi que o negócio era arrebatador, que era bom demais servir a Deus como pastor, lutar contra um sistema desumano que cria deuses ou semi deuses enquanto Deus busca homens que sejam sempre homens. Consegui? Ainda não. Ainda luto, porém já não luto só. Na verdade nunca lutei, sempre tinha o Valdemar ( Blumenau) o Mario ( Cachoerinha ) o Luiz ( SP) o Wagner aqui perto mas com as mesmas lutas que eu ... O Zé do Egito aqui em Fátima lutando com as mesmas crises e ulceras e bebendo o mesmo remédio. Um reino de amigos. Desisti de ser menino e percebi que a graça de Deus é arrebatadora. Primeiro veio o Guilherme 14 anos de idade, fraquinho, nem branco nem gaúcho, pior corintiano! Hoje pastor Guilherme, forte, bonito e ainda corintiano. O Sidi já veio vocacionado mas que bebeu da água daqui, bebeu mesmo! Agora o Gabriel, Hérisson, Jeffinho Vida Livre, Jefinho Paraguaio e o Paulo, nessa igreja multicor o mais branquinho é o Gabriel que por sinal também é gremista. Podiam os cinco ser qualquer coisa na vida, mas resolveram ser pastores... vão chorar, se apaixonar, viver para o Evangelho e certamente impactar outros que um dia virão e também serão levados pela vocação do amor. Sejam bem vindos gente boa de Deus.
Com amor Lucio, pastor de gente como a gente!

4 comentários:

Manfred Christian disse...

Continue assim Gremista de Sto Angelo-RS ... quer dizer pastor ehehe...

Mesmo de longe, acompanho seus passos desde os primórdios desse conto gauchesco e carregado de saudade, hoje matucho por vocação.

Manfred Christian Rees

SBKAUER disse...

Aleluia. Bom vê-los meus queridos! Grande abraço manão, que o Senhor continue te agraciando para abençoar vidas!

Luciano disse...

Paz!
Não é possível ler sem se emocionar com a realeza da obra de Deus em nossas vidas. Viajei no tempo. Tive lembranças maravilhosas daqueles dias de tua conversão.
Vejo hoje que a soberania de Deus está sobre nós. Ele usa quem Ele quer, onde quer e como Ele quer. Ter usado a mim é um sinal do amor de Deus por coisas fracas. Não há nada melhor do que ser e permanecer servo. Orgulho que no eleva a qualquer posição é pecado, mas orgulhar-se do crescimento espiritual de filhos gerados na fé significa ânimo para continuar. Luciano e" Pri" vocês são especiais no Reino de Deus. Os desafios são exatamente do tamanho de vocês. Aquele que começou boa obra entre vocês há de completá-la.
Amamos vocês!
P Mario e cândida

Luciano disse...

Bela reflexão, mano, se permitir, postarei na Rede. Acabo de chegar do Rio de Janeiro, voei para lá na madrugada de sábado, fui representar a quinta região, nos 25 anos, jubileu de prata da Pastoral de combate ao Racismo. Deus é tremendo.

Pois nestes dias.

Venci o medo, voei de avião, Campo Grande a Campinas, Campinas, Cidade do Rio
Rio a Campo Grande.

Conheci o mar, livre, pisei na areia da práia, aonde meus ancestrais há cinco séculos pisaram cativos cativos, vi o porto, onde desembarcavam acorrentados.

Fui ao Corcovado. Fiquei na favela Complexo do Alemão, vi a outra face do Rio, a qual não aparece nos cartões postais, mas sim no Datena e outros programas policiais. A noite, na Igreja Metodista de Nilópolis, preguei, sobre Bartimeus, a margem da sociedade, ignorado e quase silenciado pelos homens, mas visto, notado, enxergado, ouvido e abençoado, por um Deus, que em Jesus de Nazaré, ve e chama para si, os que vivem a margem da sociedade.

Até quando o Senhor, de nossas vocações permitir. estamos nessa luta irmão, juntos e misturado, na graça, trazendo tempero e sabor do Reino, a cidade de Fátima do Sul, onde Deus nos estabeleceu.