Poucos sabem qual é o valor de um botão de duas camadas, goleador. Gus sabia. Tinha o seu. Ademir da Guia. Azul-marinho em cima, branquinho embaixo. Pouco maior do que uma moeda de um real. As bordas do Ademir não eram retas, como as de outros botões vulgares. Eram meio arredondadas, o que dava ao Ademir botão as características do Ademir que respirava: um e outro eram classudos. Craques. Com Ademir, Gus ganhava todos os torneios do bairro. Os torneios eram disputados por botão: cada guri casava um, o vencedor ficava com todos. Assim Gus aumentava seu plantel.
Mas, um dia, Ademir da Guia sumiu. Gus estava no salão de festas, disputando um campeonato. Jogaram durante horas, ele e os amigos. No fim da tarde, quando foi reunir a delegação, ué? Cadê o Ademir? Não o encontrava em lugar algum. Os amigos ajudavam a procurar, olhavam sob as mesas, atrás da porta. Nada. Muitos guris haviam passado por ali durante a tarde. Será que alguém roubara o Ademir? Ou o botão rolou pelo chão e caiu em algum ralo, algum desvão?
Gus foi para casa sentindo o peito apertado. Passou a noite pensando no seu goleador. A mãe perguntava o que havia, ele dizia que nada. Como uma mulher haveria de compreender o valor de um botão goleador? Tomou a decisão de, no dia seguinte, vasculhar o salão outra vez. Antes de dormir, com o ardor dos seus 11 anos, implorou a Deus, Jesus e Nossa Senhora, todos juntos, que o fizessem achar o Ademir.